Meus caros leitores, esta crônica de Olavo Bilac, representa muita bem o valor desta cidade: Cidade Imperial.  A beleza singular de cada canto destas terras montanhosas nos proporciona  uma caminhada tranquila entre bosques e casarios do século XIX e, ainda, nos dá o sentimento de liberdade e segurança que poucas cidades podem oferecer. Viver em Petrópolis é participar de uma história que inicia em 1822 e bate na nossa porta, convidando-nos a viver entre poetas, filósofos e artistas. Eu sou apaixonado por esta cidade que a cada dia tem o poder de encantar minha alma. 

Ricardo André

 

 

Petrópolis … Falemos de Petrópolis, amigo leitor…

Há nos noticiários, às vezes, coisas que me irritam desmarcadamente. Esta, por exemplo. “Ontem, em Petrópolis, houve uma conferência política… “, ou esta: “Em Petrópolis, o presidente do estado “, ou ainda esta: “No 1º. distrito eleitoral de Petrópolis… ” Santo Deus! por que há de haver política, por que há de haver presidente de estado, por que há de haver eleições em Petrópolis?

Todas essas coisas chatas e vulgares deviam ficar em Niterói, à beira-mar, nas ruas baixas e feias : a política dá-se bem, ali, com o cheiro de maresia, com a umidade, com o calor, com o suor, e com os bondes da Cantareira !

Mas em Petrópolis ! a oitocentos metros acima do mar, no pináculo verde da serra da Estrela, perto do céu, perto dos astros, perto de Deus ! naquela altura abençoada que possui todas as manhãs os primeiros bafejos da luz ! naquele paradisíaco retiro tão alto, que à noite a gente quase chega a poder conversar com os habitantes vermelhos de Marte e com as habitantes alvas de Vênus ! A política ali, e as conferências, e as secretarias, e as tricas eleitorais, e as urnas, que, como mulheres fáceis, se deixam violar por todo mundo!… É horrível !

Quisera eu,  que todo mundo, ao subir a serra, ao chegar à estação de Petrópolis, sentisse, completa e cabal, uma verdadeira ressurreição da alma — lembrando-se de que todas as coisas tristes da vida, os negócios, o trabalho, a política, a ambição, a hepatite, a dispepsia, o mexerico, ficaram cá embaixo, no atoleiro mercantil da cidade, sem asas para poder galgar a montanha verde, em que a Natureza irradia com tanta beleza, e onde há o culto do conforto e do luxo.

Calma e linda cidade, feita para as recatadas delícias das luas-de-mel, para os comedidos e fidalgos flirts, para o doce e bem-aventurado ócio, filho da Ventura, pai dos Sonhos que embalam a alma! — que idéia foi essa de te converter em capital de estado?

Ainda eu compreendo a existência das tuas fábricas de tecidos, ó Petrópolis ! principalmente de fábricas em que não haja abuso de vapor, mas abuso de água, de muita água cristalina e rumorosa, espumando nas represas, movendo os teares — água fresca e alegre, cuja voz canta a beleza dos sítios agrestes e perfumados, de onde desce para vir ajudar o trabalho dos homens. Mas a existência das repartições de estado, isso é que não, Petrópolis, isso é que não!

Mas Deus é grande! A burocracia, mais cedo ou mais tarde, se há de aborrecer da pureza daquele ar, e há de descer à sua rasa e abominável planície. Nesse dia, Petrópolis não terá nenhum defeito…

Há quem prefira Teresópolis ou Friburgo ; há quem, mais amigo ainda da natureza virgem, prefira o mato cerrado, o campo autêntico, a autêntica vida rústica. Para mim, Petrópolis é o ideal.

Amo devidamente o mato cerrado, quando o vejo celebrado em bons versos; e devidamente amo a autêntica vida rústica, quando a vejo descrita em livros de arte, comoO sertão de Coelho Neto. Mas na vida prática, meus amigos, confesso que só amo a natureza civilizada, tratada com arte e carinho pela mão do homem. Certo, é agradável o cheiro da mata, como são agradáveis a frescura das grotas e a meia-escuridão dos recessos de bosque, emaranhados de cipós. Mas tudo isso é perigoso. No bosque há espinhos que dilaceram a face e as mãos, e cobras que mordem, e formigas que sem cerimônia sobem pelas pernas da gente, e, sobretudo, que pavor! certos bichinhos que não cheiram propriamente a ervas orvalhadas, nem a moitas de jasmins desabrochados… Para um homem civilizado, só há um lugar habitável : é o lugar onde se pode conservar a roupa limpa, os sapatos lustrosos e as mãos sem calos ; todos os outros lugares podem ser infinitamente belos, mas só podem servir de habitação a quem, possuindo uma alma simples, gosta de dispensar os cuidados do barbeiro, do alfaiate, da engomadeira e do engraxate, para aproximar o mais possível a sua vida da vida dos animais inferiores. Os homens querem-se na cidade, pisando paralelepípedos. Os coelhos, os veados, os porcos-do-mato, é que se querem na floresta, esmagando cobras com as patas.

No tocante a florestas, só amo as florestas como a da Tijuca — de entradas planas e cuidadas, varridas duas vezes por semana, como se fossem corredores de casa, dando cômodo trânsito a carros; as outras, as virgens, as autênticas, não as disputo àqueles que, como Antônio Conselheiro, são variantes mais ou menos aproximadas do Calibã  shakespeariano.

Calibã  personagem da peça A tempestade, de Shakespeare. Encarnação da rudeza, da grosseria e da desordem, Calibã opõe-se a Ariel, espírito refinaado e sociável.

Assim, amo a vida civilizada encaixada na moldura rústica da natureza primitiva. Quero ver os troncos rugosos encontrando-se e torcendo-se, confundindo estreitamente no ar as copas altas, abrigando a algazarra dos ninhos e os amores dos pássaros ; quero ver as catadupas de águas bravias, franjando-se de espuma nas cristas das rochas; quero ver despenhadeiros e alcantis, rios e capoeirões; mas quero ver tudo isso sem incômodo, debruçado a uma janela, de dentro de uma sala em que haja poltronas, e livros, e tapetes, e copos de cristal …

Por isso, prefiro Petrópolis! Quando cuidaria o antigo Córrego Seco, modesto e selvagem, ao ver chegar a primeira leva de colonos alemães, que um dia sobre as suas terras se levantariam palácios e rodariam carruagens de luxo? Quando os casais alemães,  nutridos a queijo fresco e a cerveja loura, entregues ao amor e ao trabalho, deram filhos e melhoramentos ao lugar — logo o resto da gente pensou que devia ser deliciosa a vida, ali, naquela altura, sem miasmas, sem febre amarela.

E, logo, a corte de d. Pedro II começou a ir passar o verão naquele canto da Estrela — patrimônio da Coroa: bem pífia Corte essa, sem fausto, sem arte, sem dinheiro… Mas, enfim, sempre era uma Corte: e a cidade de Pedro foi melhorando e tornando-se a habitação da moda, durante as asperezas do verão fluminense. Hoje, é aquele encanto ! A natureza selvagem está ali perto, ao alcance dos olhos e da mão : onde há folhagens mais verdes? onde mais vivos sóis desabrocham no céu? onde mais frescas águas brotam do solo? onde mais serenas manhãs se abrem, sob neblinas alvíssimas, como noivas sob véus de rendas fúlgidas? onde mais perfumes se desprendem das moitas? onde têm mais brilho as estrelas, por noites caladas e frias?

Ali tens tu, leitor amigo, as flores da mata… Se não as queres, aqui tens as camélias formosíssimas, filhas da civilização, primores nascidos e criados à custa de cuidados sem conta. Aqui tens tu a água leve que não custa vintém; se não a queres, aqui tens, nos hotéis, os vinhos finos que custam os olhos da cara…

Em torno de ti, tens o mistério e o sossego da serra : há por ali lugares que a planta do pé do homem ainda não profanou ; se és Antônio Conselheiro, embrenha-te por esses matagais. Mas se, como eu, preferes os lugares em que não há carrapichos e cobras, aqui tens as ruas calçadas; e os carros que te evitam a fadiga das caminhadas a pé (outro hábito de selvagem que não se dá bem com o meu temperamento); e as lojas de jóias, de bibelots, de modas, de perfumarias; e as cervejarias em que se toma uma cerveja loura como Diana e leve como uma nuvem; e o teatrinho Fluminense onde Dell’Acqua exibe os seus cenários fulgurantes e os seus atores de pão ; e o teatro da Floresta; e o da moda ; e os hotéis onde se dorme bem ; e as recepções onde os olhos da gente têm a inenarrável felicidade de admirar as mais belas mulheres do Rio; e os bailes, onde à claridade ofuscante das lâmpadas elétricas, revoluteiam colos nus; e o Casino-Hotel…

Salve, Petrópolis! pequeno e esplêndido trecho, asseado e suave, da civilização, encravado no vasto seio bruto da Natureza: aí, posso ouvir o barulho das rama rias e das cachoeiras, sem ter os sapatos sujos de lama e a pele picada de mosquitos; aí posso à vontade sentir que sou animal, sem precisar esquecer-me de que sou homem; ai posso respirar o mesmo ar que respiram as aves livres e os livres quadrúpedes, sem me privar da delícia de sorver um vermouth-coq-tail numa taça de baccarat, aí posso, enfim, reintegrar-me de quando em quando no seio da Mãe Criação, sem ter para isso de tirar a gravata e os punhos… Salve, Petrópolis fidalga! mansão do Bom Gosto, onde o ar é puro e a gente é bem-educada !

Por isso mesmo, Petrópolis, por isso mesmo que és fina, e bem-educada, e fidalga — é que há muita gente que não gosta de ti : nós, em geral, no Brasil, entendemos que o reino da democracia é o culto da má-criação; e, além disso, estamos tão habituados a viver, ou no interior das confeitarias sujas, ou nas ruas imundas e fétidas, que falamos sempre mal do que é limpo e elegante.

Há quem odeie Petrópolis porque a julgue a capital do Snobismo e da Pose: santo Deus! pois se há gente que gosta de não se lavar, com medo de que se lhe ache ridículo o abuso do banho!…

Ainda há poucos dias, um jornal, falando do Casino-Hotel de Petrópolis — essa casa que Echeveria e Lassale ali mantêm como urna verdadeira Escola de Bom-Tom e Chic — dizia que aquilo era um antro de jogo e de jogadores… Pudera ! pois se aquela casa é excelente! se nela se dão festas a que concorre o que Petrópolis tem de mais notável! se ali os garçons não andam, como nas nossas confeitarias elegantes do Rio, sem paletot e com a camisa suja ! se ali se pode passar a noite com decência e conforto, conversando com gente que tomou chá em pequena ! se ali não se fala de política, nem de obscenidades, nem da vida alheia ! se ali crescem, se ali viçam, em plena força, essa delicada flor da civilização e essa frágil flor das Boas Maneiras, a cuja cultura, em geral, o brasileiro é tão estranho! — como não se há de procurar desmoralizar a casa, que assim comete o alto crime de dar bons jantares, e concertos de música que não é a do Rio Nu,e bailes que não são carnavalescos, e festas de uma harmonia incomparável?

Ai! Amigos ! e que houvesse jogo! e que houvesse jogo! que haveria nisso de altamente condenável, de provocador das cóleras humanas e celestes, de destruidor dos alicerces da instituição? O jogo mau, o jogo pernicioso e perverso, que corrompe tudo, que chama a miséria e a prostituição, que avilta o caráter, faz odiar o trabalho e amar a ociosidade, é o joguinho barato, o joguiriho do meio da rua e da turma da batota, jogo em que se metem patrões e criados, patrões e criadas, velhos e crianças, jogo que aí está às escâncaras, na rua Nova do Ouvidor, e no Agave, e no Pantheon, e nos Belódromos, e nos Frontões, e nos Bookmakers, e nas charutarias, e nas vendas, e nas repartições públicas, fervendo, desvairado, brutal, com permissão da polícia, que se confessa impotente para matá-lo, e com a animação nossa que o anunciamos, que o apoiamos, que o protegemos! Tem graça, esta acusação de ser antro de jogo, atirada a uma casa que, como o Casino-Hotel, é o único reduto a que ainda se acolhe no Brasil a sociedade que se quer divertir com luxo, porque tem dinheiro para gastar, e pode gastá-lo como bem quiser! Tem graça! e é um belo sinal do tempo!

E que houvesse jogo, amigos! O jogo, entre pessoas que se conhecem, que se prezam e estimam, faz parte da educação : é uma coisa que se deve saber praticar, assim como se tem a obrigação de saber dançar, conversar e comer… Mas a acusação falsa é o pretexto… A verdadeira causa do motim é querer estragar o que está bem-feito! Aqui, há um prazer, estranho e mórbido, em sujar as paredes pintadas de novo, e em torcer as grades dos jardins, e até em quebrar os bancos de pedra do parque da Aclamação… Oh! oráculos divinos! quando chegará o dia em que nos teremos de convencer da necessidade da Cortesia e da Decência?

Salve, apesar de tudo, Petrópolis! que falem de ti, que esbravejem contra ti, à vontade! se até já tenho ouvido dizer que o teu clima não presta!… Salve, apesar de tudo, e prospera! e apura-te! e sê sempre um oásis de asseio e frescura neste vasto deserto de sujidade e calor !

E olha : – vê se, quanto antes, a burocracia se aborrece da pureza do teu ar, regressando à sua chata e abominável planície ! uma repartição de Estado em teu seio, com amanuenses, e contínuos, e escriturários, e pretendentes, e estampilhas, e paletós de alpaca, e papeladas, e reposteiros verdes e amarelos — é como um caramujo gosmento no seio pálido de uma camélia…

Calma e linda cidade — feita para as recatadas delícias das luas-de-mel, e para os comedidos flirts, e para o doce e bem-aventurado ócio, filho da Ventura, pai dos sonhos que embalam a alma! — quem foi que teve essa desastrada idéia de te converter em capital de estado? ..

 

OLAVO BILAC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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